Em pleno domingo de verão as
poucas praias urbanas das cidades de Juazeiro (Bahia) e Petrolina (Pernambuco),
que são formadas pelo Velho Chico, estão lotadas, sobretudo o lado de Juazeiro
e a famosa Ilha do Fogo.
Todo mundo busca a beira do rio
para se refrescar um pouco e para se distrair com nados, banhos e toda sorte de
atividades que uma beira rio pode proporcionar. Eu também estou nessa e vim dar
minhas remadas.
Para felicidade não só dos
banhistas, mas também dos comerciantes, neste domingo tudo está “bombando”. Ganha-se
com tudo: da venda de água mineral ao aluguel de caiaques e stand-ups. Aliás, há filas nos inúmeros comércios
– todos estão faturando suas granas. A expressão de contentamento é geral.
Afinal, a água do rio está deliciosa, banhistas curtem adoidados e muitos ganhando
dinheiro.
Tudo legal e tudo massa! Mas a
questão que não quer calar é até quando essa boa curtição vai durar? E se o rio
continuar secando? E se os índices de poluições continuarem aumentando na água
do Rio? Como vai ficar o lazer de quem não pode viajar para se banhar no litoral,
em piscinas ou clubes particulares? E os comerciantes que ganham sua graninha?
Pergunto a um dos caras que aluga
caiaque sobre a atenção que devemos ter com o Rio e sobre a possibilidade disso
tudo, em algum momento, acabar. Este responde: “Deus não vai deixar”.
Esta resposta me fez lembrar um
papo que tive com algumas pessoas da região. Estas diziam mais ou menos a mesma
coisa, que o Velho Chico não vai morrer porque Deus não quer.
Beleza! Também acredito em Deus
(de um jeito bem particular) e percebo que a natureza tem uma enorme capacidade
regenerativa. Entretanto, considero muito perigoso uma visão e postura que
deposita na “conta” de Deus o destino da natureza. Entendo que essa visão e
postura é cômoda e de nada contribui para reverter a situação do já cambaleante
Rio.
É certo que uma boa concepção religiosa,
do sagrado nas dimensões humanas, pode contribuir para a transformação das
relações e dos contextos. Porém, olhar simplesmente para a “vontade de Deus” e
não intervir no modo como os humanos lidam com o Rio é, no mínimo, cinismo
travestido.
Enquanto rolam essas indagações na
minha cabeça, todos continuam a se divertir, outros ganham suas pratas... E o
Rio, ainda resistindo, tem, em suas margens, um monte de detritos deixados
pelos curtidores, pelos crentes, pelos cínicos... Mas só não me venha dizer que
é porque Deus quer!
obs. Existem louváveis exceções em relação a empresas, como é o caso da Arca Sport, que eu tenho considerado uma empresa de responsabilidade social e ambiental.
Por Marcelo Ribeiro.