sábado, 17 de outubro de 2015

Ontem e hoje, outras Petrolina , insustentáveis...

André Luiz
Articulista do Coletivo Vale do São Francisco Sustentável

Reporto-me as minhas memórias do pouco que já vivi em Petrolina, para refletir sobre uma utopia necessária, viver numa Petrolina sustentável.
Nasci na santa casa de misericórdia em Juazeiro e no terceiro dia de vida fui morar em Petrolina. Atravessei a ponte ainda quando as vias eram separadas por trilhos e dormentes. Acompanhei meu pai desde os quatro anos de idade em suas entregas de cigarros pelas bodegas e vendas das duas cidades. Tomei muito caldo de cana e pão com manteiga no barraco de zé soldado situado no antigo mercado público de Petrolina, onde vi a maior quantidade e diversidade de peixes e caças da minha vida. Do Surubim ao Caboja, do Tatu ao Caititu. Joguei muita bola nos campinhos do centro da cidade. Montei quixó no campo de aviação para pegar preá. Pulei o muro de estádio para assistir jogo do Caiano. Joguei caroço de tamarindo nas pessoas dentro do cine Petrolina. Dei incansáveis voltas em torno da concha acústica após a missa só para poder olhar novamente o sorriso da paquera. Atentei zé moxotó em busca de gaiolas para muriçocas. Lanchei aos domingos no alvorada de iô iô. Chupei sorvete na iglu. Nadei até a pedra do círculo militar mesmo morrendo de medo que o último fio de cabelo de nossa senhora que segura a serpente da ilha do fogo quebrasse. Vi show de Luiz Gonzaga quando as barracas de São João eram feitas com palha de coco. Tive medo do papa figo, que vinha para a cidade junto com os Circos. Tomei carreiras da galega da Areia Branca, quando ia treinar na piscina do centro da juventude. Brinquei nas barcas encalhadas na margem de Petrolina. Comprei pão na padaria de Seu Mário. Peguei umbu no Riacho da Vitória. Fui festas na Chocalho. Brinquei carnavais embalados pelas baterias de Expedito e de Maria Maga e nas matinês no Petrolina Clube. Assisti a dama da lotação e império dos sentidos no Cine Ideal, em seu disfarce público e notório de falsa sorveteria. Me escondi da baratinha de Antonio Furão. Fui ver prostitutas do Balão tomar banho na lagoa de Seu Euclides. Por vezes, até frequentava a praça do milho e o beco do fatos em busca de uma manceba. Enfim, vivi um pouco de uma outra Petrolina, uma outra cidade. Todavia, estou convicto, a cidade não era Sustentável.
Hoje, a cidade é outra. A ponte já não tem mais trilhos e dormentes. A Santa Casa de Misericórdia fechou. As bodegas e as vendas viraram mini, super e hiper mercados. O mercado municipal foi engolido pelo Viaduto dos Barranqueiros e, zé soldado não foi para o CEAPE. Os Surubins e os Cabojas perderam suas lagoas para os prédios da orla e não conseguem mais subir a correnteza além da Cachoeira de Sobradinho. Os Tatus e os Caititus passaram a ser protegidos por leis, porém viram seus campos serem desmatados com a chegada dos perímetros irrigados. Os campinhos de bola foram invadidos por prédios de hospitais privados. A Concha Acústica não é mais o point de paqueras nas noites de domingos. Nenhum time joga mais no Estádio da Associação Rural, que está preste a ser vendido e destruído para a construção de torres. O Campo de aviação foi decomposto em inúmeras organizações do progresso. A piscina do Centro da Juventude deixou de ser a única da Cidade fora de um Clube. A margem Petrolinense do rio São Francisco ficou imprópria para banho, o esgoto e as baronesas passaram a dominar as suas águas. O exército protege a cidade contra a serpente da Ilha do fogo. A padaria de Seu Mario, a Sorveteria Iglu e a Lanchonete e restaurante Alvorada foram fechados pela especulação imobiliária. A venda de Zé moxotó deu lugar a uma boutique, "e ele nem tava de olho na butique dela". O Riacho da Vitória virou um dreno de sais de perímetros irrigados. As batucadas foram perdendo espaço para os petrofolias. A Chocalho fechou as portas. A Vila Balão, o único prostíbulo assumido de Petrolina, foi literalmente destruído. A lagoa de seu Euclides acaba de ser aterrada para a construção do parque aquático da Univasf. A praça do milho virou a praça de vendas de automóveis. As mancebas de ontem, hoje são os travestis do Hotel do Grande Rio. Enfim, hoje Petrolina não é mais a mesma Cidade. Contudo, contínuo convicto, a cidade ainda não é Sustentável.
E amanhã qual será a nova Petrolina...

Catedral de Petrolina



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