André Luiz
Articulista do Coletivo Vale do São Francisco Sustentável
Reporto-me as minhas memórias do
pouco que já vivi em Petrolina, para refletir sobre uma utopia necessária,
viver numa Petrolina sustentável.
Nasci na santa casa de
misericórdia em Juazeiro e no terceiro dia de vida fui morar em Petrolina.
Atravessei a ponte ainda quando as vias eram separadas por trilhos e dormentes.
Acompanhei meu pai desde os quatro anos de idade em suas entregas de cigarros pelas
bodegas e vendas das duas cidades. Tomei muito caldo de cana e pão com manteiga
no barraco de zé soldado situado no antigo mercado público de Petrolina, onde
vi a maior quantidade e diversidade de peixes e caças da minha vida. Do Surubim
ao Caboja, do Tatu ao Caititu. Joguei muita bola nos campinhos do centro da
cidade. Montei quixó no campo de aviação para pegar preá. Pulei o muro de
estádio para assistir jogo do Caiano. Joguei caroço de tamarindo nas pessoas
dentro do cine Petrolina. Dei incansáveis voltas em torno da concha acústica
após a missa só para poder olhar novamente o sorriso da paquera. Atentei zé
moxotó em busca de gaiolas para muriçocas. Lanchei aos domingos no alvorada de
iô iô. Chupei sorvete na iglu. Nadei até a pedra do círculo militar mesmo
morrendo de medo que o último fio de cabelo de nossa senhora que segura a
serpente da ilha do fogo quebrasse. Vi show de Luiz Gonzaga quando as barracas
de São João eram feitas com palha de coco. Tive medo do papa figo, que vinha
para a cidade junto com os Circos. Tomei carreiras da galega da Areia Branca,
quando ia treinar na piscina do centro da juventude. Brinquei nas barcas
encalhadas na margem de Petrolina. Comprei pão na padaria de Seu Mário. Peguei
umbu no Riacho da Vitória. Fui festas na Chocalho. Brinquei carnavais embalados
pelas baterias de Expedito e de Maria Maga e nas matinês no Petrolina Clube.
Assisti a dama da lotação e império dos sentidos no Cine Ideal, em seu disfarce
público e notório de falsa sorveteria. Me escondi da baratinha de Antonio
Furão. Fui ver prostitutas do Balão tomar banho na lagoa de Seu Euclides. Por
vezes, até frequentava a praça do milho e o beco do fatos em busca de uma
manceba. Enfim, vivi um pouco de uma outra Petrolina, uma outra cidade.
Todavia, estou convicto, a cidade não era Sustentável.
Hoje, a cidade é outra. A ponte
já não tem mais trilhos e dormentes. A Santa Casa de Misericórdia fechou. As
bodegas e as vendas viraram mini, super e hiper mercados. O mercado municipal
foi engolido pelo Viaduto dos Barranqueiros e, zé soldado não foi para o CEAPE.
Os Surubins e os Cabojas perderam suas lagoas para os prédios da orla e não
conseguem mais subir a correnteza além da Cachoeira de Sobradinho. Os Tatus e
os Caititus passaram a ser protegidos por leis, porém viram seus campos serem
desmatados com a chegada dos perímetros irrigados. Os campinhos de bola foram
invadidos por prédios de hospitais privados. A Concha Acústica não é mais o
point de paqueras nas noites de domingos. Nenhum time joga mais no Estádio da Associação
Rural, que está preste a ser vendido e destruído para a construção de torres. O
Campo de aviação foi decomposto em inúmeras organizações do progresso. A
piscina do Centro da Juventude deixou de ser a única da Cidade fora de um
Clube. A margem Petrolinense do rio São Francisco ficou imprópria para banho, o
esgoto e as baronesas passaram a dominar as suas águas. O exército protege a
cidade contra a serpente da Ilha do fogo. A padaria de Seu Mario, a Sorveteria
Iglu e a Lanchonete e restaurante Alvorada foram fechados pela especulação
imobiliária. A venda de Zé moxotó deu lugar a uma boutique, "e ele nem
tava de olho na butique dela". O Riacho da Vitória virou um dreno de sais
de perímetros irrigados. As batucadas foram perdendo espaço para os petrofolias.
A Chocalho fechou as portas. A Vila Balão, o único prostíbulo assumido de
Petrolina, foi literalmente destruído. A lagoa de seu Euclides acaba de ser
aterrada para a construção do parque aquático da Univasf. A praça do milho
virou a praça de vendas de automóveis. As mancebas de ontem, hoje são os
travestis do Hotel do Grande Rio. Enfim, hoje Petrolina não é mais a mesma
Cidade. Contudo, contínuo convicto, a cidade ainda não é Sustentável.
E amanhã qual será a nova
Petrolina...
Catedral de Petrolina

Nenhum comentário:
Postar um comentário